Na coluna “Para Pensar na Cama”, tratamos de temas videogamísticos espinhosos que ninguém mais tem capacidade (ou vergonha na cara) para discutir.
Nesta coluna, vamos discutir o tema que está incomodando qualquer gamer adulto com desejo de reconhecimento pelos seus amigos não-gamers: os videogames são arte?
A resposta para essa pergunta é muito fácil: depende.
“Que colunista imbecil! Ganha pra dar esse tipo de resposta!”
Bem, pra começar, eu não ganho nada além de um afago no ego ao saber que tem gente que lê o que eu escrevo. E depois, a resposta tem de ser essa mesmo. Porque, se você perguntar para 100 pessoas o que é arte, muito provavelmente você vai receber 100 respostas diferentes…
Algo que é arte para mim não necessariamente é arte para você, leitor, por mais que tenhamos gostos parecidos. Ao ver um quadro de Miró com seus garabatos, muita gente vai dizer coisas do tipo “meu filho faz melhor”; ao ouvir Stockhausen, muitos (incluídos muitos de vocês) vão ficar com vontade de desligar o CD player; ao ver as obras de Yoko Ono, poucos vão realmente chamar aquilo de “arte”.
(Sim, a bruxa japonesa, antes de ser a dominatrix de John Lennon, era membro de um movimento artístico chamado Fluxus, um grupo de artistas avant-garde de influência dadaísta, e muito respeitada pelos críticos ingleses. Duvida? Vai ler o Wikipedia, minino!)
Por isso, a resposta tem de ser “depende”. No entanto, como essa é a minha coluna, e ela tem de refletir a minha opinião, eu digo: sim, os videogames são obras de arte.
Infelizmente, isso não acaba a coluna. Porque ninguém quer saber se os videogames são obras de arte – afinal, como disse acima, a qualidade de “arte” depende do observador. Então, para o público dessa coluna, a resposta era óbvia.
A verdadeira pergunta, que vocês realmente querem saber a resposta, é: o Videogame, enquanto meio de expressão, é uma Arte, como a Escultura, a Literatura ou o Cinema?
A resposta para isso, sem sombra de dúvida, é: não. Porque ainda não fez por merecer.
“COMO ASSIM? E SHADOW OF THE COLOSSUS? E METAL GEAR SOLID? E ZELDA OCARINA OF TIME?”
Bem, infelizmente, os defensores do Videogame Arte não se deram conta de que, assim como teatro filmado não é cinema, filme interativo não é videogame.
Difícil de entender? OK, vamos começar o raciocínio do princípio.
Quais são as consideradas “artes clássicas”? Escultura, arquitetura, música, dança, teatro e pintura/artes plásticas. O cinema e a fotografia são as “artes modernas” (muitos consideram os quadrinhos também).
Qual a diferença entre elas? Se olhamos bem, elas podem até compartilhar objetivos (por exemplo, o teatro e o cinema têm por objetivo contar histórias – sejam elas mais ou menos explícitas para o espectador), mas têm linguagens diferentes. No nosso exemplo, temos que a maneira de contar uma história no teatro e no cinema são bem distintas.
Agora chegou a hora de vocês argumentarem de novo: “ah, mas a linguagem dos videogames é muito distinta da linguagem do cinema, o cinema não é interativo”. Verdade. No entanto, existem peças de teatro em que os atores interagem com o público, assim como existem aqueles livros do tipo “se você quer que John Baugman ataque o mosquito chupa-sangue com seu machado dos deuses, vá para a página 72; se você quer que ele saia correndo como uma mariquinha, vá para a página 25″. E ninguém considera nem um nem outro como novas formas de arte, continuam sendo teatro e literatura (ruim, mas ainda assim literatura).
O videogame mainstream cai nesse problema. Por melhor que sejam os games, eles ainda não se livraram do esquema “cinema interativo”. Mesmo Pac-Man conta uma história, afinal de contas. Logo, não existe muito argumento para dizer que o videogame mainstream é algo mais do que cinema interativo.
Ainda assim, existem videogames com potencial para bater no peito e dizer “eu sou arte pelos meus próprios méritos!”. Pena que o terreno para esses videogames seja o terreno indie. Jogos como Sonic Invaders, que subvertem a maneira de se contar uma história, são a verdadeira mostra do que os videogames podem chegar a ser enquanto Arte. Esses são os títulos que estão elevando o meio ao status que ele diz merecer, não o trabalho de Miyamoto, Kojima, Wright ou Molyneux.
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