Na coluna Memória RAM, vamos relembrar alguns games de nossa infância, da época em que os jogos DE VERDADE vinham em cartuchos…
Muita gente diz que os jogos licenciados são terríveis. Sim, realmente costumam ser uma porcaria, com uma exceção aqui, outra ali. Mas existem pelo menos dois grupos de games que fogem completamente da regra:
- Os jogos do Homem-Aranha baseados nos gibis (muito importante dar ênfase a isso…).
- Os jogos de personagens da Marvel feitos pela Capcom.
O ponto 1 será objeto de uma futura coluna. Por enquanto, vamos nos centrar no ponto 2.
Todo mundo conhece os jogos da série Vs. que a Capcom fez para os arcades (incluo aqui X-Men Children of The Atom e Marvel Super Heroes pra ficar mais fácil). Mas não é o nosso objetivo aqui falar desses jogos (mas prometo que vou propor uma coluna sobre eles nas nossas reuniões editoriais, porque eles merecem). Vamos falar hoje sobre os dois diamantes que a Capcom lançou para SNES: jogos com gráficos excelentes, trilha sonora que não fica atrás, e uma história abaixo da crítica – mas são jogos baseados em gibis, então quem se importa?
O primeiro deles foi X-Men: Mutant Apocalypse.
O jogo é um game de plataformas, onde você pode jogar como um dos cinco X-Men selecionáveis (Ciclope, Wolverine, Psylocke, Fera e Gambit) num entorno 2-D. O esquema de controle para esse tipo de jogo segue o padrão da época, com um botão para golpes e outro para pulos – mas com a inovação dos poderes mutantes, controlado com combinações de botão com um movimento no direcional, seguindo o estilo Street Fighter 2. Como todo mundo conhecia o jogo de luta da Capcom, isso não foi um problema, e aumentou a complexidade do jogo na medida justa.
Cada um dos personagens tem a sua própria fase e seu número de vidas (se esse número chegar a zero para qualquer um deles, é game over). Quando todos chegam ao final dessa fase, temos três estágios em que se pode escolher o X-Men de sua preferência, dois estágios de “treino” (lutas um-contra-um, mas você ainda pode morrer) e um último estágio em que cada X-Men tem novamente sua própria fase – apesar de que essa fase se considera um caminho até Magneto, que é o chefe final, e não é necessário chegar com todos eles (se você chegar até Magneto com um único personagem e ganhar a luta final, você terminou o jogo). Um esquema bastante criativo para uma época recheada de jogos “bata primeiro, pergunte depois”.
Eu particularmente considero esse um dos melhores jogos para o SNES. Num videogame recheado de clássicos, ele consegue se destacar com sua jogabilidade criativa, desenho de fases bastante equilibrado (apesar das fases em que se pode escolher o personagem acabam complicando as coisas, já que uns personagens se dão melhor que outros) e que reflete bem a história que está sendo contada (já que nos estamos infiltrando numa base, nada melhor que cada personagem vá por um caminho diferente).
Infelizmente, para seu segundo jogo licenciado, a Capcom pegou o único ponto fraco do jogo anterior e trabalhou em cima dele. Estou falando de Marvel Super Heroes: War of The Gems.
A Capcom lançou o jogo na trilha aberta pelo seu arcade Marvel Super Heroes. Ele aproveita a mesma história do arcade (a saga das Jóias do Infinito, publicada pela Marvel) e joga por cima da estrutura básica do jogo anterior, mudando os personagens. Em outras palavras: à primeira vista, temos o mesmo jogo, mas com personagens Marvel que não são X-Men (com exceção do onipresente Wolverine; os outros personagens jogáveis são Homem-Aranha, Homem de Ferro, Capitão América e Hulk).
O problema principal é que eles, em vez de manter a estrutura do jogo, mantiveram apenas o básico (plataforma 2-D, esquema de controle com especiais SF2-like). No que acertaram, mas parece que mandaram o designer dos inimigos embora e contrataram um fulano que passava pela rua. O resultado é que o jogo, pra usar uma expressão em voga na época, ficou muito “ladrão”. Os inimigos (duplicatas malignas suas e de outros heróis Marvel) são, além de poderosos (alguns podem tirar facilmente um quarto da sua energia em um combo de dois socos), gostam de cercar você, ou de ficar totalmente fora de alcance e usar um ataque de mergulho que você não vai perceber até que veja que está no chão, porque ele lançou o ataque de fora da tela enquanto você estava batendo no companheiro dele…
Se esse fosse o único problema, poderíamos relevar (afinal, vários jogos da época eram assim). O problema é que, além disso, a Capcom ainda achou interessante adicionar um toque de “estratégia” ao jogo no estilo Mega Man: desde o início, além de escolher a fase, você deve escolher o personagem com que vai vencer a fase. Nada de mais, se o desenho das fases não tivesse sido feito para privilegiar alguns personagens em detrimento de outros. Em algumas fases, combos aéreos são praticamente essenciais (coisa que apenas o Homem de Ferro e o Capitão América têm), enquanto em outras você precisa se agarrar nas paredes (Homem-Aranha ou Wolverine) para não passar por um caminho estreito e cheio de inimigos que é praticamente impossível de ser batido…
Agora você pode deixar um herói morrer e ainda pode terminar o jogo com outros, mas para compensar sua barra de vida não se enche ao final da fase. Então se fizeram necessários outros complicadores, como itens que você pega nas fases e usa no seu menu de jogo: containers de vida e vidas extras (que você pode colocar no personagem que quiser). Além das Jóias do Infinito, que dão poderes especiais ao herói que as possua – e que, claro, são melhor utilizadas por alguns heróis…
Não sei quem pensou que esses toques de estratégia eram uma boa idéia para um beat-em-up, ainda mais depois de um jogo tão bem equilibrado como XMMA. No entanto, se você pode viver com isso, o jogo ainda é bom; o esquema de controle continuou sólido e a parte técnica (gráficos e som) mantiveram o alto nível. Mas, se tenho de votar, ainda prefiro XMMA.
Notas:
X-Men: Mutant Apocalypse – 9/10
Marvel Super Heroes: War Of The Gems – 6,5/10
Como jogar:
Como agora as licenças de personagens Marvel estão em outras mãos (o Homem-Aranha e os X-Men estão na Activision, enquanto o resto ficou com a Sega), eu diria que as possibilidades de esses jogos aparecerem no Virtual Console estão entre nulas e desprezíveis. Então tire o pó do seu Super Nintendo ou compre um baratinho e consiga os cartuchos originais (no eBay não estão muito caros, apesar de que MSH:WotG é medianamente raro), ou utilize o emulador de sua conveniência. Não me pergunte sobre emuladores ou ROMs, porque aqui não é suporte técnico.
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